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ALQUIMIA DE UM DEVIL

GRANDE HISTÓRIA

«Começámos com 16 pessoas…Agora temos cerca de 73 atletas e 9 treinadores»

18:25 – 07-11-2015

O homem, como ser humano que é, não nasce ensinado. Tom Brady não foi exceção. Decerto nasceu com alguma aptidão para o desporto, contudo só conseguiu tornar-se um herói depois de conhecer a humildade e a vida. ´Porque não é a vontade de vencer que importa. Todos o conseguem. O que importa é a vontade de se preparar para vencer´. E aí reside a diferença. Palavras sábias de Paul Bear Bryant, aquele que foi o treinador que melhor compreendeu as regras do jogo. Seja aqui, ou acolá, ouvimos a palavra ´touchdown´ e depressa nos lembramos do ´haka´ dos All Blacks. Mas isto não é râguebi. É muito mais do que um jogo. Com os olhos postos na América, no grande sonho do Super Bowl, nasceu em Portugal uma pequena família de gigantes. Tal como uma alquimia dos sentidos, transformaram o chumbo em ouro. Ainda não ganharam nenhum campeonato, mas não deixam de ser verdadeiros campeões. Heróis sem peso nem medida que podem ser o que quiserem: pais, filhos, alunos, polícias, bancários, arquitetos…Não vivem da riqueza de um ordenado porque não o têm. Mas não deixam de viver a paixão que os move. Tom Brady disse uma vez que, ´os verdadeiros atletas são os únicos que sempre jogam para vencer´. E Duarte Hipólito não tem qualquer dúvida. Há dois anos decidiu criar um clube. E criou-o. Se é o que esperava? Não, porque superou as expectativas. «Quero que um dia possa vir aqui com os meus filhos e ver um jogo dos Devils e poder dizer: ´Foi o pai que começou isto´. E já é maior do que alguma vez imaginei…»

Na sua génese, existia apenas aquilo que os americanos chamavam de ´football´. Ainda durante o século XVII, os primeiros colonos da Virgínia entretinham-se com uma bola, não era mais do que um jogo importado da Europa que, por aqueles tempos, se jogava em Inglaterra. Até ao século XIX, o jogo manteve-se sem regras definidas, tornando-se a atividade de luxo praticada por universitários. Tornou-se famoso o´Bloody Monday´, organizado na Universidade de Harvard, a partir de 1827 que consistia num embate violento entre os caloiros (os ´freshman´) e os alunos do segundo ano (os ´sophomores´).

Sem regras ainda estabelecidas, o jogo acabou por elevar os padrões de violência e brutalidade, eram muitos os jogadores lesionados e existiram mesmo relatos de vítimas mortais entre os seus adeptos. A prática corrente do jogo levou a um debate do que seria na realidade o ´football´, já que o seu estilo se aproximava ao que os entendidos conheciam por râguebi. Mas houve um senhor em particular que acabou por revolucionar o desporto – Walter Camp, estudante e jogador da Universidade de Yale, New Haven, Connecticut e um entusiasta do novo jogo. Definiu-lhe as regras e chamou-lhe futebol americano. 

Pedro Guerreiro (vice-presidente), Duarte Hipólito Carreira (Presidente), André Amorim (Treinador principal) (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Uma equipa de futebol americano à portuguesa

18:53 – 07-11-2015

Duarte Hipólito Carreira começou por jogar numa pequena equipa da região de Lisboa. Amava o jogo, mas não se considerava um jogador exemplar. «Era um obeso há uns quantos anos atrás. Joguei futebol americano durante um ano, não tinha jeito nenhum para aquilo, mas achava que podia fazer alguma coisa no desporto». Numa brincadeira de amigos, acreditou que o desporto podia ser muito mais do que aquilo que era praticado. Deixou de jogar e apostou no negócio de uma vida. «Foi assim que nasceram os ´Lisboa Devils´, por dois amigos que jogaram juntos no Santa Iria Wolves». A ideia era boa, mas Duarte Hipólito e Aníbal Oliveira depararam-se com um problema ainda maior: arranjar as ferramentas necessárias para construir o sonho. «Foi necessário uma dose grande de loucura porque há dois anos se me tivessem dito que eu ia encontrar os desafios que encontrei nestas duas épocas, se calhar não tinha aceite, porque a maioria das pessoas acha que para ter uma equipa de futebol americano não é ter muitos equipamentos, capacetes e armaduras e está feito. Não é. Isto é uma relação diária com toda a gente, tens que criar compromissos junto dos jogadores, porque sem eles não somos ninguém e, depois temos que ter uma equipa técnica que dê corpo a esse compromisso, cuja missão está muito intrínseca ao corpo técnico. Começamos com 3 treinadores, hoje somos 9, mas o espírito não mudou muito desde o início até agora, sabemos bem onde queremos ir, não queremos saltar etapas, não saltamos etapas, e sabemos que o sucesso é um caminho que se percorre a pouco e pouco»

Foi com orgulho que, Duarte Hipólito viu nascer em 2013 no campo de Sport Lisboa e Olivais um pequeno grupo de gigantes, a quem chamou ´Devils´. Para o efeito, precisavam de um treinador experiente, alguém que compreendesse o terreno e as regras do jogo. André Amorim foi o eleito. Enquanto jogador, foi quatro vezes campeão nacional durante os seis anos ao serviço dos ´ Navigators´.

Aos 26 anos, André é o treinador mais novo na Liga Portuguesa de Futebol Americano, curioso é que, a primeira vez que agarrou numa bola e tentou jogar, não lhe achou grande piada. «Comecei a jogar aos 17 anos e tudo começou por acaso. Na altura estava a jogar futebol europeu mas já estava desmotivado, e optei por ir experimentar. Em primeira instância não gostei assim muito sinceramente, mas, depois fui ficando e acabei por me apaixonar pelo desporto».

FUTEBOL AMERICANO - Reportagem com os Lisboa Devils, no Estadio Branca Lucas, do SL Ovivais, nos Olivais . (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Reportagem com os Lisboa Devils, no Estadio Branca Lucas, do SL Olivais, nos Olivais . (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

«Temos o objetivo máximo de sermos campeões e ajudar a divulgar este desporto em Portugal»

Hoje André vive para os ´Devils´ como treinador, já não se aventura no campo como outrora, mas o sonho ainda faz parte da sua realidade. «Houve uma altura em 2013 quando sai dos ´Navigators´ para os ´Devils´ que pensei fazer carreira no futebol americano, pensei que podia eventualmente fazer este caminho, passar para treinador, e quem sabe posteriormente ir treinar outras equipas na Europa. Não digo Estados Unidos porque a diferença é gigante, mas pensei nisso. Agora, sinceramente, olho para isto ainda com uma grande paixão, não é um hobbie, é mais do que isso, mas carreira se calhar já não. Consome-nos imenso ter que gerir não só os jogadores mas também a nossa equipa técnica, preparar-nos para os jogos, a parte tática, estudar os adversários. Às vezes é um bocado complicado, tenho atletas cujas idades vão dos 17 aos quarenta e muitos, e quando às vezes eu lhes digo a minha idade, não acreditam. Eu quero acreditar que a idade é um número, nunca vi isso como um entrave ou uma barreira».

«Começámos com 16 pessoas, hoje a treinar temos cerca de 73, mais 9 treinadores», explicou Duarte Hipólito, o Presidente e fundador do clube quando confrontado com as mudanças que os ´Devils´enfrentaram nestes dois anos. «Mudou tudo, a escala rebentou. Quando começamos pensávamos que íamos ter 20/25 pessoas por treino, hoje em dia temos uma média de 50 pessoas. Temos o apoio da ´Refood´ com quem mantemos desde o início uma relação mas que também é muito importante para nós. Até a nível de gestão, antes era muito centralizada em mim, obviamente fui eu que comecei, tinha muito isto na minha cabeça e hoje em dia, já conseguimos ter uma direção com 9 pessoas. Eu e o Pedro Guerreiro somos os representantes legais do clube mas depois temos um concelho consultivo que nos permite pôr em marcha determinados projetos aos quais eu e o Pedro apenas vamos tendo conhecimento, interferimos em algumas fases a dizer que sim ou que não, mas as pessoas tem total capacidade para trabalhar pelos ´Devils´ e isso deixa-nos muito satisfeitos, saber que, daqui a dois ou três anos, eu e o Pedro provavelmente não estaremos na direção do clube e quem vier, quase diria com a chave na mão, porque de facto conseguimos ter boas condições e espero que isso continue. Quero um dia vir aqui com os meus filhos e ver um jogo dos ´Devils´ e poder dizer: ´foi o pai que começou isto´. E já é muito maior do que alguma vez pensei…».

Navigators versus Devils

André não se arrepende da escolha que fez, não olha para trás, apenas revela um futuro promissor. No entanto não esconde o sentimento quando recorda a ´casa´ que lhe deu as bases para hoje ser o treinador que é. «Joguei seis anos nos ´Navigators´. No início foi um bocado complicado, temos sempre aquelas questões emocionais: ´eles vão continuar a ser meus amigos ou não, vamo-nos afastar ou vamos estar todos os dias´. Uma equipa acaba sempre por ser mais do que uma equipa, acaba por ser uma família. Mas um dos maiores pontos em que me queria focar era ajudar o futebol americano a crescer, e naquela altura senti que, nos ´Navigators´, ainda que eu tivesse algumas funções na equipa técnica, senti que a minha ausência não iria ser tão prejudicial como a minha ´não ausência´ no outro lado, neste caso um projeto novo que era ambicioso, e senti que podia dar mais. Em termos emocionais foi complicado no início mas tomei a minha decisão de forma racional e agora, já passaram dois anos, há uma rivalidade intensa dentro de campo, acho que é normal, mas fora do campo, continuo amigo de imensos atletas dos ´Navigators´, bem como de outras equipas. Como somos um mundo tão pequeno, acabamos por nos dar todos bem. O treinador dos ´Navigators´ acabou por ser meu mentor durante quatro anos e continua lá, por isso, no início, ainda que a questão emocional tenha tido algum peso, nunca foi o meu fator principal». Agora os sentimentos são outros. 

Nos ´Devils´, André Amorim conheceu Anthony Skinner, um polícia canadiano de profissão que além de treinador, foi o filósofo do aprendiz. «No meu primeiro ano como treinador, tentei fazer tudo da melhor maneira que sabia, mas sem ter alguém verdadeiramente a apoiar-me dentro de campo. O ano passado acabei por ter o Anthony e sem sombra de dúvidas que tem sido mais que um treinador, para mim tem sido um amigo».

Os treinos já começaram e a primeira prova de fogo já tem um destino traçado: os ´Navigators´. Não será apenas um jogo de reencontros, mas sim o jogo que todos esperavam, e só uma equipa pode ganhar. Duarte Hipólito mostrou-se confiante. «Temos consciência que não é uma andorinha que faz a primavera, embora a nossa andorinha seja muito grande, vamos encarar o jogo com os ´Navigators´ com todo o respeito esperando obviamente ganhar essa partida com todos os nossos jogadores dentro de campo». Quanto a André Amorim, não tem dúvidas e apenas pediu uma coisa aos seus jogadores: o título de campeões. 

«Os ´Navigators´ são a equipa que em termos desportivos tem dominado o futebol americano. Em seis anos de liga portuguesa perderam um jogo. Eu sei como eles trabalham lá dentro, o porquê de serem assim, são altamente dedicados e tem um conjunto de pessoas e um núcleo de trabalho fantástico, e não existe substituto para isso. A única maneira que nós temos de superar alguém que trabalha assim, é trabalhar tanto ou mais do que eles. E é isso que temos tentando incutir na nossa equipa, e estamos a entrar numa fase da nossa evolução em que em termos desportivos. Temos que começar a ter retorno, não podemos ficar apenas satisfeitos por sermos a equipa mais reconhecida fora de campo, temos que ser a equipa que também é a mais conhecida dentro de campo, por ganhar jogos e por ganhar títulos. Vencer todas as equipas em ternos nacionais e ser campeões».

Reportagem com os Lisboa Devils, no Campo Branca Lucas, do SL Olivais, nos Olivais . (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Quem são os Lisboa Devils?

18:45 – 07-11-2015

A escolha do nome não foi difícil, confessou André. Eram três as hipóteses em cima da mesa, prevaleceu aquela que tinha maior potencial. ´Devils´ pareceu-lhe justo, além disso encaixava bem com as cores da casa pintada de vermelho. Mas o que é um ´Devil´? Não basta apenas fazer-lhe a tradução, isso é fácil. Difícil é definir-lhe um sentido. «Queremos as pessoas mais fortes, altas, corpulentas, é verdade, queremos, e de facto são as pessoas mais difíceis de encontrar, mas o futebol americano dá para todo o tipo de fisionomia. Temos atletas que tem no máximo 1,70 de altura e são super atléticos, e que se calhar, se alguém passar por eles na rua, nunca diria isso. O verdadeiro equilíbrio que é preciso encontrar, está entre o aspeto físico e o aspeto mental para conseguir também preparar as jogadas, de perceber a parte tática e de se saber comprometer»

Mais do que a condição física, para ser um bom jogador de futebol americano, um ´Devil´, acima de tudo precisa dedicar-se e comprometer-se. Segundo André Amorim, esses são os ingredientes principais.«Sabermos que, quando iniciamos este projeto traçamos um plano de três anos que chamámos os 3 c´s: a criação, consolidação e a conquista. A chave do sucesso não é uma pessoa que faz os ´Lisboa Devils´, mas a dedicação de todos nós e as peças que se foram encaixando ao longo dos últimos dois anos que nos levaram a estar onde estamos agora e ambicionarmos estar no topo do futebol americano em Portugal».

A dependência das mensalidades dos jogadores

De acordo com as contas do treinador, um plantel a nível nacional tem normalmente cerca de 40 a 50 atletas. Os ´Devils´ contam com mais de 70. Um número ambicioso mas que na prática dá muitas dores de cabeça.«Como treinador, o mais difícil para mim, é gerir dentro de campo e ter a noção que, tenho cerca de 70 jogadores, 70 vidas pessoas, 70 vidas profissionais, e saber que todos têm dias maus, e por vezes há situações pontuais que são mais difíceis de gerir»

Fora de campo, o clube enfrente a questão das mensalidades. Nenhum jogador é profissional, nenhum jogador tem contrato ou recebe um salário base. Pelo contrário. Cada ´Devil´ paga cerca de 30 euros mensais para sustentar o clube e viver a paixão do sonho americano. «Felizmente temos nos Olivais uma boa base de apoio e trabalho, sempre nos abriram as portas para nos darem todas as condições de treino possíveis: temos uma casa onde arrumamos o material, deram-nos uma sala para montarmos um ginásio para uso do clube», questões que para André Amorim fazem toda a diferença. «Os valores passados dentro de campo, nos treinos, são valores que acabam por influenciar as suas vidas fora dos campos. E a diferença de idades entre eles acaba por ser um intercâmbio de ensinamentos. Os mais velhos vão buscar a força dos mais novos, e os mais novos acabam por ganhar a dedicação, o sentido de responsabilidade dos mais velhos. Não é normal de se ver porque os desportos normalmente são divididos em escalões. Aqui a idade não e fator».

No Sport Lisboa e Olivais concentra-se um misto de ensinamentos. «Há de tudo um pouco: polícias, bancários, professores, alunos, arquitetos», explicou Duarte Hipólito. 

FUTEBOL AMERICANO - Bernardo Solipa durante uma Reportagem com os Lisboa Devils, no Estadio Branca Lucas, do SL Ovivais, nos Olivais.  (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Bernardo Solipa durante uma Reportagem com os Lisboa Devils, no Estadio Branca Lucas, do SL Ovivais, nos Olivais. (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Futebol Americano não é râguebi

Para André Amorim, os ´Devils´ não são só as pessoas que estão dentro de campo, são todas as pessoas que os seguem, que os apoiam. «Este ano temos connosco um rapaz que nos segue há dois anos nas redes sociais. Chegou ao pé de nós e disse: ´Eu não percebo nada de futebol americano, mas eu sou vosso fã, eu adoro-vos, não tenho corpo de jogador, mas gostava de aprender´. Não posso dizer não a alguém que nos segue há dois anos, desde o início, que gostava de estar connosco mas que não encaixa dentro de campo mas que quer ajudar. Acabei por convida-lo para ficar connosco na equipa técnica, como olheiro». E como Gonçalo, há muitos mais. Não que não percebam de futebol americano, mas que no fundo não sabem definir as regras do jogo, acabando por associar ao râguebi. 

Apesar das semelhanças entre as duas modalidades há diferenças que devem ser compreendidas nas palavras de um treinador. «Ambos são desportos de progressão no terreno, a principal diferença é que o râguebi é um jogo corrido, a bola nunca para, excetuando quando a bola sai para fora das linhas, mas é um jogo muito mais corrido. O futebol americano é um jogo muito mais tático, muito mais pensado. Temos quatro oportunidades para avançar as tais 10 jardas, nesse processo temos de combinar a jogada e executar, depois voltar a combinar e voltar a executar. O propósito de ambos é igual: chegar à linha de ´toutchdown´ e pontuar. Enquanto o râguebi tem ou 7 ou 15 jogadores, no plantel de futebol americano temos 11 jogadores que jogam no ataque, 11 jogadores que jogam na defesa, e ainda 11 jogadores que jogam em equipas especiais, são processos muito específicos do jogo. Ou seja, no futebol americano acabamos por ter sempre cerca de 30 jogadores que são titulares e isso não acontece em quase desporto nenhum. Por isso é que nós temos uma necessidade muito grande de ter vários atletas e temos pessoas de várias fisionomias, mais pesados, menos pesados, maiores, mais baixos. Embora sejam desportos com o mesmo propósito, aquilo que os diferencia é o aspeto tático, que é muito mais intenso no futebol americano, e na minha opinião pessoal, o aspeto de espetacularidade».

O sonho internacional

Portugal conta a nível nacional com cerca de 10 equipas de futebol americano divididas entre o norte e o sul do país. Nenhuma delas é profissional, apenas acreditam que a força de um desporto pode mudar mentalidades. Muitas delas vivem sem apoios, mas procuram opções. Procuram chegar às pessoas e mostrar que há realidades tão perto mas ao mesmo tempo tão longe, ofuscadas pela prática corrente do desporto-rei.

É certo que no Estados Unidos Tom Brady é rei, mas não poderia o Super Bowl ter no trono um português como líder do futebol americano? Na prática, para André nada é impossível, mas realisticamente o caso muda de figura. «Penso que se houvesse um conjunto que se aliasse com algumas ideologias entre as várias equipas nacionais, acho que já estávamos preparados para ter uma seleção nacional. Em 2013 os ´Lisboa Navigators´ foram jogar contra a Seleção espanhola e ganharam. Quero acreditar que os ´Navigators´ com alguns jogadores nacionais nesse jogo, que estariam noutras equipas, em vez de terem ganho o jogo por um ponto, tinham ganho o jogo por bem mais pontos. Em termos nacionais há muitos bons jogadores».

FUTEBOL AMERICANO - Ivo Nascimento durante uma Reportagem com os Lisboa Devils, no Campo Branca Lucas, do SL Olivais, nos Olivais. (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Ivo Nascimento durante uma Reportagem com os Lisboa Devils, no Campo Branca Lucas, do SL Olivais, nos Olivais. (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

O capitão com dotes de arquiteto

18:39 – 07-11-2015

Podem não falar deles, mas os ´Devils´ falam por si. Foi dessa forma que Ivo Nascimento chegou ao clube depois de ver o projeto no Facebook. Aos 26 anos, divide-se entre o trabalho como arquiteto e o desporto, onde assume a função de capitão da equipa. Ivo começou por experimentar o futebol, tinha 8 anos. Já na idade adulta acabou por abandonar os campos para se dedicar exclusivamente à vida académica. Mas não conseguiu ficar longe por muito tempo. O corpo já estava habituado. Queria mais. E eis que surgiu o futebol americano na sua vida. 

Confessa que no início não sabia ao certo o que era, mas depressa lhe tomou o gosto. «Apesar do que dizem, que é um jogo muito parado, que é um jogo cansativo, demora muitas horas, não é bem assim. Uma pessoa que percebe o mínimo, saiba as regras do jogo e em que consiste, consegue compreender que o jogo não é assim tão chato. E ao contrário de um jogo de futebol europeu que é um jogo que tem muito tempo morto, muitas paragens, no futebol americano qualquer jogada é importante. Cada vez que a bola sai é uma jogada que pode dar ´toutchdown´». Elemento fundamental na equipa desde o seu aparecimento, Ivo considera-se um ´Devil´ de alma e coração. «Todos os anos conseguimos superar os nossos objetivos e conseguimos mostrar no panorama do futebol americano em Portugal que estamos aqui, não somos só mais uma equipa, estamos aqui para ultrapassar todos os obstáculos e para sermos campeões. E acho que um ´Devil´ é mesmo isso, um ´underdog´ que todos os anos consegue mostrar que não é aquilo que os outros pensam e que é muito mais do que isso».

Com os olhos postos em J.J Watt

Além da humildade e vontade de vencer, um jogador precisa superar algumas provas físicas para ser denominado um ´Devil´. São as chamadas captações. São muitos os que concorrem, mas só os verdadeiros vencedores ficam para contar a história. É durante o treino geral, que normalmente se analisa a velocidade, força e agilidade do atleta e que se definem as posições que cada jogador pode ocupar. «Por ser um jogador alto e pesado, não sou muito rápido, as minhas características davam exatamente para a linha defensivo, enquanto há jogadores com a mesma altura que eu que se calhar são mais rápidos e que tem outras características e que jogam em outras posições». Ivo não recebe passes nem corre com a bola, no entanto, admite que tem curiosidade em conhecer a sensação de pontuar. «Sempre estive na mesma posição e confesso que há sempre aquela curiosidade de experimentar uma outra. A minha função é agarrar o jogador que tem a bola. Já imaginei obviamente que podia jogar numa posição de ataque, em que pudesse marcar um ´toutchdown´ que é o objetivo de qualquer jogador. Mas não me preocupo com isso, tento apenas dar o melhor de mim»

Focado no jogo, Ivo tem como base um jogador incontornável no futebol americano: J.J Watt. «O ano passado foi considerado o melhor jogador defensivo da NFL. J.J Watt joga exatamente na mesma posição que eu. O futebol americano é engraçado porque há posições muito diferentes, onde se consegue admirar as pessoas. Há o ´quarterback´ que consegue fazer passes extraordinários, há o ´receiver´ que consegue apanhar as bolas de qualquer maneira e feitio. É um desporto que se consegue admirar além dos jogadores que pontuam».

Reportagem com os Lisboa Devils, no Campo Branca Lucas, do SL Olivais, nos Olivais . (ANTONIO AZEVEDO/ASF)

Da Madden NFL para a vida real

18:35 – 07-11-2015

Bernardo Solipa tem 22 anos e é um desportista nato. Estuda as propriedades da Educação Física e dá aulas de ginástica. Dentro de campo é um verdadeiro ´Devil´. Começou por treinar numa equipa sediada no Parque das Nações que acabou por trocar em busca de melhores condições e um futuro risonho. «Nunca me faltou nada. Nunca senti nenhuma necessidade ou falta de algo, sempre achei que tinha tudo ao meu dispor aqui nos ´Devils´». E ao contrário de Ivo, Bernardo conheceu o futebol americano através de um jogo eletrónico. «Estava em casa a jogar Madden NFL quando tive vontade de experimentar, achei o jogo divertido, tentei perceber as regras, como funcionava, até que ganhei o gosto pela modalidade. Apesar de não ser muito conhecido aqui, percebi que era um desporto muito maior do que eu pensava». Ídolos não tem, mas já fez uma análise aos jogadores de futebol americano. Um dos preferidos é Aaron rodgers,´quarterback´ pelo Green Bay Packers. 

Tal como Duarte Hipólito explicou e André Amorim pôs na prática, um ´Devil´ é muito mais que um jogador de futebol americano em part-time. E Bernardo vai mais longe. É muito mais do que um jogo, é uma modalidade que aproxima as pessoas. Ser ´Devil´ é ´preocupar-nos uns com os outros, dar tudo uns pelos outros, jogar uns pelos outros seja em que situação for, não haver ações egoístas´.

O melhor ainda está por vir
Para quem visita no imediato, o Sport Lisboa e Olivais pode parecer que nada tem à primeira vista, mas qualquer curioso em busca de uma história não se fica apenas pelo olhar. Porque no fim, depois de conhecer cada recanto, cada vírgula do campo, decifrar todos os enigmas de um clube criado em prol de uma equipa cuja riqueza está essencialmente na vontade de vencer, não fica indiferente. São no fundo os pequenos´nadas´ que na verdade se assumem cheios de ´tudo´

Duarte Hipólito não se enganou quando por brincadeira apostou numa crença. André nunca se arrependeu de um dia dizer que ´sim´ sem pensar duas vezes. E todos os ´Devils´ que jogam para honrar a camisola correm por amor ao desporto e ao sonho. São profissionais que encontram no futebol americano a fuga do quotidiano. 

Podem não ser perfeitos, afinal ninguém o é. Mas são nas pequenas imperfeições que se constroem as mais sólidas muralhas. São pequenos príncipes sem castelo, não se alimentam das riquezas de um contrato, eles próprios são os bancos do seu império…

Cristiana Santos
A Bola