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Entrevista Presidente Lisboa Devils

A competição já está arrumada e os Devils de férias. Por isso esta é a altura ideal para fazer um balanço e ouvir a opinião do presidente dos Lisboa Devils, Duarte Hipólito Carreira, sobre como correu a época que agora finda e o que podemos esperar da que se inicia em Setembro. 

Duarte, fala-nos um pouco sobre esta segunda época dos Lisboa Devils.

Convém ir um pouco mais atrás e falar sobre o primeiro ano dos Devils: em 2014 tivemos uma época desportivamente abaixo daquilo que projectámos à altura da fundação do clube, embora lisonjeira para um clube de primeiro ano. Mas cientes de que isso não poderia acontecer na época seguinte, tomámos algumas decisões no sentido de inverter essa realidade, como foi o caso de aumentar a equipa técnica, e fomos recrutar conhecimento, quer em Portugal quer no estrangeiro. 

A adição do Coach Anthony Skinner deu um boost gigantesco mas foi também um choque incrível pois sabíamos que a equipa ia demorar a assimilar aquela (exigente) cultura táctica. Trouxemos também outros novos treinadores, como o caso dos coaches Craig Korthase e André Lopes, que trouxeram ainda maior competência ao staff. A par dessas alterações foi também preciso fazer alguns ajustes no Ataque dos Devils já com a temporada a decorrer, com o André Amorim a acumular a função de Head Coach e de Coordenador Ofensivo. Por estas e outras razões, sabíamos que a máxima força só iria surgir lá para meados de Abril, altura decisiva da época. Podemos ser uma equipa amadora, num campeonato amador, mas temos consciência de que o diabo está nos detalhes e a preparação passa por ser o maior dos detalhes.

Quer isto dizer que foi uma época positiva?

Foi uma época excelente a vários níveis porque soubemos reagir ao reality check do primeiro jogo, em casa frente aos Crusaders, e que podia ter deixado marcas profundas na equipa. Mas não, pois fez-nos ter a certeza que a tal preparação que mencionei iria ser visível lá mais para a frente, embora perder por 61-26 tenha sido demasiado injusto. Quanto a mim, à altura do jogo, não eramos tão maus para aqueles números nem os Crusaders tão incrivelmente superiores. E assim foi, porque concluímos a fase regular com um record simpático de 4-4 mas onde nos últimos jogos seis jogos marcámos 196 pontos e sofremos apenas 62. Ou seja: como tínhamos previsto, chegámos aos playoffs em boa forma.

Chegaram em forma mas com uma ida a Braga jogar com os Warriors, equipa já por duas vezes vice-campeã nacional e com forte experiência na competição.

Sim, verdade. Apesar de já os termos vencido num jogo de pré-época, nunca nos passou pela cabeça que iriam entregar a ida às meias-finais de mão beijada. É engraçado recordar este jogo pois esteve recheado de contratempos, como o autocarro que alugámos ser uma carripana que não dava mais que 75km/h…. Devemos ter demorado umas cinco horas e meia até Braga, onde chegámos, equipámos e jogámos. Depois ainda houve a questão da ambulância, que fez com que o jogo tivesse parado por 30 minutos, numa situação surreal e que me preocupava bastante pois se o jogo tivesse de ser adiado provavelmente não teríamos como jogá-lo na semana seguinte (as meias foram uma semana depois dos quartos). Mas felizmente trouxemos a vitória contra uma equipa muito experiente e que nos causou grandes dificuldades até ao fim, vendendo cara a derrota.

E com essa vitória, mais uma vez tiveram que defrontar os Lisboa Navigators.

Confesso que este foi o jogo que mais prazer me deu: primeiro porque nas partidas com os Navigators, em particular as desta época, há sempre momentos de rivalidade e de alguma tensão, o que é bom; segundo, porque sentimos que o jogo esteve tão taco-a-taco em alguns momentos que sonhar com um lugar na final era possível. É uma pena que não tenhamos conseguido a vitória mas acho que quem viu o jogo ficou satisfeito com o espectáculo que as duas equipas deram. Tivéssemos mais experiência no plantel e acredito que o resultado teria sido a nosso favor.

Na altura recordo-me que houve algumas críticas à equipa de arbitragem desse jogo…

Já tive oportunidade de dizer a jogadores e treinadores dos Navigators que tiveram todo o mérito em passar à final e que nos venceram bem. A questão das arbitragens – que, quanto a mim, são o calcanhar de Aquiles da competição em Portugal – deve ser discutida noutro fórum e de uma maneira muito séria. Não querendo fugir à pergunta, acho que fomos tão beneficiados quanto prejudicados. Estavam seis árbitros em campo; alguém acha que os Devils foram levados ao colo quando perdem por menos que um touchdown (marcámos quatro e eles cinco)? Se ganhássemos aquele jogo a justiça da vitória era igual, por isso acho que isso nem é tema.

Preocupa-me mais, por exemplo, o jogo da segunda volta que tivemos contra os Crusaders, outros rivais de divisão. Nessa partida, onde os podíamos ter igualado em termos de record caso ganhássemos, assistiu-se à pior arbitragem que alguma vez vi na LPFA e onde também perdemos por um touchdown de diferença. Recordo-me bem desse jogo e das suas incidências, que tiveram tanto de absurdo como de incompreensível.

 Achas que a arbitragem tem conseguido acompanhar a evolução das equipas?

Sinceramente, não e esse é precisamente o maior problema de todos… Hoje em dia temos equipas que trazem treinadores estrangeiros para ensinar os seus jogadores, a Liga lecciona cursos de treinadores com vencedores de campeonatos e depois temos árbitros que ganham €25 ou €30 por jogo, que têm zero ou perto de zero formação prática. Contra mim falo, que giro um clube que tem de custear as despesas de arbitragem dos seus jogos em casa, mas arbitrar em Portugal tem de ser mais atractivo. Cá em Portugal temos usado a técnica da formação on the job. E quem sai prejudicado? Os Devils, os Navigators, os Crusaders, os Pirates, os Sharks, os Mutts, os Warriors, os Lumberjacks, os Renegades e os Mustangs. Todos sem excepção perdem porque a qualidade das arbitragens é, em alguns casos, sofrível.

E o que se pode fazer para melhorar?

Não me queria alongar publicamente sobre isso pois em breve vai haver Assembleia-Geral  e Reunião da Liga e é lá que os Lisboa Devils e as outras equipas vão apresentar as suas sugestões e é dessa forma que tem de ser feito.

Que balanço fazes desta nova direcção da APFA?

Provavelmente, os Devils são das equipas que mais à-vontade estão para falar desta direcção pois é sabido que não a apoiámos nas eleições do ano passado. Mas fazemos um balanço positivo dado que entraram com vontade de cumprir os objectivos a que se propuseram, em particular no plano organizacional e burocrático, fundamental para o bom funcionamento das instituições e da competição. Também souberam organizar uma final com excelente qualidade e que deixou toda a gente agradada por ter sido uma tarde de eleição para a divulgação da modalidade. E acho que tudo isto foi conseguido com um esforço pessoal do Isaías Moreira e do Mário Pereira, o que é bom de salientar. Por outro lado, acho são inexistentes no que à comunicação diz respeito e aquilo que daí transparece para o exterior é um desastre. Quer o caso das ambulâncias nos três jogos quer o episódio da queixa do vídeo com o FA Portugal foram das coisas mais absurdas que assistimos nos últimos tempos e verdadeiras lições de “como não gerir uma crise”. Mas lá está: tudo isto são pontos que podem e serão, com certeza, melhorados ao longo do mandato.

Convém também recordar que esta foi a primeira direcção que se dignou a abordar um tema muito melindroso para alguns pois, por estranho que pareça, ainda não havia uma única alínea que regulamentasse as transferências de jogadores entre clubes. E esta direcção fê-lo por iniciativa própria e isso é de aplaudir.

Consideras que era necessário de fazer nesta fase?

Quanto a nós, claro que sim. As fundações de uma casa constroem-se por baixo e não por cima. Por que não há-de um clube ser ressarcido se outro quiser levar um jogador seu? Dou o exemplo dos Devils: este ano investimos fortemente, talvez como nenhuma outra equipa, na formação dos nossos jogadores, com treinadores de qualidade. Se no final da época um dos meus jogadores for convidado/aliciado/o que lhe quiserem chamar para se juntar a outra equipa, leva esse conhecimento consigo. E o investimento que fizemos nesse atleta deixa de se justificar pois não vamos contar com ele. Daí ser muito bom que haja um mecanismo que nos proteja e, de alguma forma, compense o tempo e dinheiro perdidos.

Mas será que a Liga Portuguesa de Futebol Americano já tem jogadores a quem se justifique pagar uma transferência para os ter no plantel?

Naturalmente que tem. Quer jogadores quer treinadores. Se todos concordamos que já podíamos ter uma selecção nacional, como raio podemos dizer que não temos jogadores ou treinadores com mercado? Uma coisa é perguntares-me se têm valor para a NFL e eu respondo-te que não. Mas certamente alguns têm valor para serem recrutados, quer interna quer externamente. E o mais engraçado desta conversa das transferências é que algumas pessoas nem sabem que isto se trata de uma imposição da IFAF [Federação Internacional de Futebol Americano], à qual a nossa Liga pertence. Muitas vezes ouvi dizer que “ainda não estamos preparados para isso” e fiquei espantado pois parece-me um argumento que só desvaloriza os nossos atletas e staff técnico… Neste momento, há equipas nacionais que estão a contratar lá fora – onde oferecem alojamento, comida, treino de ginásio, etc. – mas se calhar deviam olhar para dentro de portas e perceber que há, no football português, muitos valores seguros que podem, perfeitamente, ser contratados nas mesmas condições para jogar noutras equipas. Até porque muitas vezes o jogador internacional, o import, é um poço de problemas para quem contrata… Basta procurar online e ver a quantidade de casos onde a coisa corre mal. Por isso acredito muito que o jogador português é o futuro da nossa modalidade, assim se aposte na sua formação.

Voltando ao football, há pouco mencionavas momentos de rivalidade e tensão nalguns jogos.

Nos jogos com os Navigators e Crusaders é claro e evidente que se sente uma rivalidade a crescer. Mal seria se isso não acontecesse! A verdade é que quase todos nos damos bem fora do campo mas dentro dele não nos podemos esquecer que defendemos as cores que trazemos nas camisolas… É perfeitamente normal que tenha amigos noutras equipas mas que queira vencê-los, não é verdade? Até porque tenho a certeza que do outro lado o pensamento é exactamente o mesmo. Claro que depois há aqueles que de alguma forma exageram e tentam estragar alguma dessa rivalidade. Mas sei que há um cuidado muito grande da parte dos responsáveis quer da nossa quer de equipas rivais em passar a mensagem aos jogadores de que não somos adversários e não inimigos, o que são coisas muito diferentes.

Para terminar que a conversa já vai longa, o que podemos esperar dos Lisboa Devils do próximo ano, agora que o foco está em cima da equipa?

Do ponto de vista organizacional vai ser um ano importante, já que vamos ter eleições para a direcção do Clube, onde apresentaremos um conjunto de membros com um perfil virado para a gestão. E todos temos um objectivo muito claro, que vai bem além da acção diária: preparar os Devils para os próximos cinco/seis anos, independentemente dos lugares e pessoas que neles agora estejam. Queremos deixar as coisas bem preparadas e documentadas para que quando houver uma transição essa seja o menos desgastante possível. Ninguém sabe o dia de amanhã por isso vivo obcecado em ter uma organização muito preparada e que não dependa de uma só pessoa. Talvez por isso tenhamos optado por um modelo que privilegie a organização e o seu futuro, em detrimento dos interesses de A, B, C ou D. Em suma: quando um dia deixarmos a gestão dos Devils, quem vier encontrará uma equipa organizada, quase que ao estilo “chave na mão”. É pegar e começar a trabalhar no mesmo momento!

Desportivamente, quando lançámos a equipa em 2013 estabelecemos que os três primeiros anos estavam definidos por três C’s: o primeiro o da Criação, o segundo da Consolidação e o terceiro da Conquista. Por isso podem esperar uns Devils ambiciosos, mais fortes, empenhados como nunca e com muita vontade de ir mais longe do que fomos na época que agora termina.